notas-amorosas-de-um-jantar-dancante

Enrolar a língua na hora de pronunciar o nome no vinho, mas jurar por Deus, acima de todas as gargalhadas, que não está bêbada. Obedecer e fechar os olhos quando pedido e ser imediatamente tomada pelo sabor agridoce do aperitivo que ele enfiou na sua boca. Provar o molho com nome esquisito. Abrir as casquinhas do pistache com mais cuidado do que o necessário só para ter o que fazer das mãos. Levar o elogio a sério e corar. Ficar mais bêbada do que parecia ser humanamente possível.

Farejar o assado feito com um dos figurantes do Bambi. Contar a história do licor da sua avó para alguém que realmente quer ouvir a história do licor da sua avó. Comprar o tipo errado de torrada. Descobrir que existe um tipo errado de torrada. Gostar de tâmaras, sorvete, molho branco carregado na manteiga, pasta de amendoim, queijo quente. Seguir a receita com toda atenção. Desgostar de carne bem-passada, de linguiça, feijoada, de um monte de tipos (não todos) de frangos. Dançar de rosto colado perto da ilha, ouvindo a chaleira chiar. Intuir sobre o pior que pode acontecer. Cozer – mas não muito. Arder – o suficiente. Decantar – enquanto for possível. Dar a volta na mesa. Discutir se é cardápio, se é menu. Admirar a toalha bordada pela tia. “A sua?”. “Não, a de alguém”. Desconsiderar o elogio e ficar vermelha. Dar um beijinho no pão. Polvilhar a carne com açúcar mascavo. Franzir o nariz para o sushi de salmão ou, pelo menos, para a ideia do sushi de salmão. Revogar a Lei da Gravidade com dois, três toques. Debater que espécie de temporada teríamos numa The West Wing filmada em 2017. Dar uma pirueta na omeleta, que aterrissa perfeita de volta à frigideira e declarar sem qualquer modéstia: “O segredo está no pulso”. Falar omeleta e não omelete e não ser corrigida. Temperar a salada com mostarda e mel. Comer casquinha de siri até que toda esperança se acabe. Roçar de braços enquanto um pica, o outro retalha. Aprender sobre a história do tomate. Invejar as fábulas do elBulli. Abrir os potinhos para cheirar cada tempero. Desejar. Bater a massa como num filme. Surpreender-se com o método de arrumação da geladeira alheia. Cortar o presunto bem petitico. Lamentar todas as cartas não enviadas. Observar o macarrão sendo lenta e irrevogavelmente coberto pelo molho. Ah, o molho. Entender a ciência dos ovos mexidos. Esperar pela sobremesa. Ansiar pela sobremesa. Suspirar pela sobremesa. Ferver o leite com a baunilha e os paus de canela. Queimar a ponta do dedo na manteiga derretida e ficar sem ação quando alguém enfia seu dedo na boca enquanto acaricia suas costas. Creditar às passas ao rum quase todo o bem da civilização ocidental. Tocar o creme com a ponta da língua. Comer o sorvete de creme holandês na colher do outro. Considerar os méritos da torta polvilhada de chocolate. Relembrar como os espanhóis fazem isso. Frases curtas, cada vez mais curtas. Café, licor, mais café, conhaque. Sentir formigar a pele sobre a qual a mão dele estava. Permanecer apesar de tudo, tudo mesmo, ter acabado.

Na vitrola: Sea of love, de Phil Phillips e George Khoury, gravada em 1959. Ouvir todas as versões, mas adorar a do Phillips um tiquinho mais.

Showing 2 comments
  • Ana Paula Medeiros
    reply

    Suspirar. Aguar a boca. Reler. Suspirar mais e de novo.
    Ah, Fal…

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  • […] escreve desde 2002 o Drops da Fal e, atualmente, tem uma coluna no Oba Gastronomia. De escrita cativante, sem reserva, dada, danada e, esperamos, das que se agrada de andar seminua, […]

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