Nós nunca tivemos uma tia com esse nome

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Há uma receita perdida em algum lugar. Uma receita, uma receita. Não sabemos seu nome, nem de que banda da família veio, mas está por aí.

 Há uma receita perdida em algum lugar. Vem de tempos passados, da fachada caiada de branco, da geladeira amarela dos anos 1970, do chão de ladrilhos desgastados, do cão cor de mel debaixo da mesa, da tia rosada, gorda e tola, e de um velho avô – em algum lugar da casa. Ah, há uma casa para essa receita, não se esqueça, por favor.

Há uma receita perdida em algum lugar e ela fala de paus de canela fervidos no leite, milho macio afundado no creme, bifes suculentos, aspargos, pedrinhas de sal. Ela fala da manteiga derretendo sobre o pão de alecrim, do medo do escuro, da bicicleta com cestinha, das flores azuis.

Há uma receita em algum lugar e, em volta dela, plantamos lírios e, logo ali, junto do muro, as árvores nanicas que dão mexericas azedinhas. Há uma receita em algum lugar, e é a receita que desejamos e buscamos. Está na ponta da nossa língua cada vez que pedimos a qualquer um que fala sobre qualquer comida, em qualquer lugar: “Dá a receita ?”. Até anotamos o que o amigo diz, mas a receita que espera por nós não vem. Porque ela está em algum lugar, mas não aqui.

Há uma receita, em algum lugar, esperando por nós, pelo medidor certo, pela panela de cobre, pela tigela de bater bolo que a bisavó trouxe da Itália. Não foi escrita, ninguém se lembra dela, “vai óleo?”, “precisa da forma de fundo falso?’, é uma receita perdida, lembre-se, ninguém realmente sabe as respostas.

Há uma receita perdida em algum lugar que não é minha, nem sua, não é da infância de nenhum de nós, que fala do que nunca pudemos ser, do que esperamos conseguir, do gosto que sabemos perdido, do que não nos lembramos, do que sentimos todos os dias.

Há uma receita perdida em algum lugar e é maravilhosa, “lembra ?”, “não”, “era a tia maura que fazia”, “nós nunca tivemos uma tia com esse nome”. Nós nunca tivemos uma tia com esse nome.

Há uma receita perdida em algum lugar e ela vem de longe e de perto, de ecos estranhos, do bebê que você não teve, daquela ideia vaga, daquele curso que pareceu bacana, daquele cara que soou insuportável.

Há uma receita perdida em algum lugar, uma sopa, talvez?, e leva limão e ervas e sal e ainda assim, carrega estranha doçura enquanto aceitamos o que nunca teremos, o que desejamos, enquanto nos deparamos com o abismo aplacado pelo abraço do irmão, a gritaria da despedida, o abismo transponível pela ponte aérea e, ainda assim, inexorável.

Há uma receita perdida em algum lugar. Há uma receita perdida em algum lugar. Há uma receita perdida em algum lugar. Ela vem do futuro, das decisões tomadas, dos passos dados, dos sins, dos nãos, das horas que você passou junto do fogo, olhos grudados no azul, vestido de xadrez laranja, os estalos da madeira, chamamentos impossíveis, pipoca, pinhão.

Há uma receita perdida que sumiu por entre a trapeira da sua alma, uma receita que resgata os vários sabores adocicados, as ervinhas do jardim, as galinhas poedeiras e ruivas, o leite da cabrinha, o inesperado salgado, aqui, ali, tão obscuro, tão silencioso, uma receita secreta para mim e para você. Há uma receita perdida, meu bem, uma receita tão reservada que quase não existe, mas que está por aí, entre o meu olfato e seu paladar.

Há uma receita em algum lugar, em algum lugar, uma receita que eu nunca vi, que você nunca provou, mas que, ainda assim, é nossa predileta e nós nos lembramos dela, e nós a procuramos tanto, e nós a adivinhamos enquanto fazemos experiências desastradas que acabam em farinha de mais, fermento de menos, muitas gargalhadas, uma ótima forma arruinada. Falamos dela enquanto tomamos fôlego em frases intermináveis, sustenidos impossíveis, ao mencionarmos a casa que nunca teremos, no lugar que não existe, nossas crianças que não nasceram.

Há uma receita perdida em algum lugar. Suas medidas são inexatas, seus ingredientes, inconcebíveis, seu modo de preparo, descabido, seu resultado, glorioso. Ela jamais ficará pronta e nós a provamos, todos os dias.

 

 

 

8 Comentários

  1. Mônica San Galo disse:

    Há uma receita para traduzir o que pensamos e não sabemos dizer de jeito nenhum, mas essa, graças a Deus existe de verdade, não é um sonho.

    Essa receita é tu, Fal.

    E que seja sempre assim. Amém.

  2. Clô disse:

    Prefere Tia Fita Branca ou Tia Branca Fita? Você não tem tias-avós baianas, não é?

  3. Mercia Lustosa disse:

    Não tem erro, quando leio os seu escritos eu penso que leio sobre amor, alegria, cumplicidade, sabor de mil e uma noites… sei não, é apaixonante!!! Bjs

  4. Marise Caetano disse:

    Ah, Fal querida, sempre tocando fundo no coração, com tanta delicadeza. Obrigada, amora. Beijos, muitos

  5. Wilma Felinto disse:

    Demais, demais… Vou guardar. Beijo Fal.

  6. Adriana disse:

    Acabei de te conhecer e já sou sua fã! Adoro quando a comida é traduzida em história! Poesia pura! Parabéns!!!!

  7. Renata Tasca disse:

    Que delicadeza de texto! Lindo! Tem cheiro de tanta coisa… cheiro de vó de vida, de infância…
    Fui tocada com o cheiro do bolo no forno e das memórias que me foram suscitadas, e dos sonhos que ainda tenho , e das coisas que não vivi! meu agradecimento pelo texto!

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